São José de Mipibú - RN / Arquidiocese Natal
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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

O Pároco e a comunidade

No código de Direito Canônico, art. 519, está codificado que o pároco é o pastor próprio da paróquia a ele confiada; exerce o cuidado pastoral da comunidade que lhe foi entregue, sob a autoridade do Bispo diocesano, em cujo ministério de Cristo é chamado a participar, a fim de exercer em favor dessa comunidade o múnus de ensinar, santificar e governar, com a cooperação dos fiéis leigos, de acordo com o direito. A experiência parocal é muito exigente. As relações estabelecidas envolvem muitas pessoas. Há um dinamismo muito enriquecedor, quando vivido com responsabilidade e testemunho, de ambas as partes, ou seja, a pessoa do pároco e dos paroquianos. Um texto de leitura satisfatória e deleitosa, para qualquer bibliófilo, é o “Diário de um pároco de aldeia” de Bernanos (escritor francês). O mesmo, ao iniciar sua genial obra, diz “minha paróquia, parafraseando o pároco, é uma paróquia como todas as outras. Todas as paróquias se parecem. As paróquias de hoje, naturalmente. Eu dizia ontem ao pároco de Nerofontes: o bem e o mal devem ficar em equilíbrio nelas, só que o centro de gravidade está lá embaixo, bem lá embaixo”. Como escritor, não teólogo, este centro não vem tão bem elucidado pelo autor, que, se o fosse, deveria dizer que este centro de gravidade é o mistério pascal de Cristo, que é força motriz e vencedora do mal que assola muitas vezes às paróquias. Mas porque nela estão presentes pessoas, que por mais pecadores que o sejam, são filhos de Deus, apesar de muitas vezes se comportarem como filhos da mentira.

O tipo de relação que o pároco, mistagogicamente, deve ter com a paróquia é a mesma que Cristo teve com sua Igreja (Ef. 5,25), ou seja, ele se consagra e a ela se doa. Vale tomar a metáfora e dizer que a paróquia para o pároco é como uma esposa para a qual o padre está permanentemente a dedicar-se. Com fidelidade e respeito, amando e respeitando-a até que providencialmente Deus os separe. O equilíbrio humano, refletido na postura de quem está apto a ser Pater Família” (Pai de Família), é algo a ser atualmente zelado. O escritor tem razão quando diz que sua paróquia é como as outras, mas o ponto de equilíbrio será aquele que agirá “in persona Christi”. Um pároco de uma cabeça bagunçada, faz muito mal a sua paróquia. Um padre, que não dá testemunho e que não tem uma identidade sacerdotal que se define diariamente para Cristo, vicia e tenderá os fiéis para o mal. O múnus de ensinar, santificar e governar a paróquia será responsabilidade deste pastor próprio, em comunhão com o Bispo. O papa João Paulo II afirmou que o padre de ontem, de hoje e de amanhã deve se configurar a Cristo (Pastores dabo vobis, 5). A cultura da mediocridade que impulsiona a muitos serem amantes do luxo, do materialismo, do carreirismo, da sexualidade doentia e do laxismo moral precisa ser superada. O Papa Bento XVI afirmou que os piores inimigos da Igreja estão dentro da própria Igreja.

Tomando o outro lado, lembro aos fiéis leigos que estes também são responsáveis pelo bem da vossa paróquia. O pároco precisa trabalhar com pessoas de amor a Cristo e a sua Igreja. Esta não pode ser usada para promoções individuais, no campo econômico, político e social. É a comunidade dos fiéis batizados. Com eles e o pároco deve haver parceria e consciência de pertença a Cristo, marcada pelo Batismo. Este sacramento os faz participarem de um único Povo, que é o de Deus. Jesus no capítulo 17 de João nos dá a pista para o tipo de relação entre este Povo e o seu sacerdote.

Por fim, o amor não dispensa a justiça. O pároco e os fiéis não podem esquecer destas atitudes. O pároco ensina o amor que santifica e que se santifica e age com a justiça que não perde nem é perdida. O mesmo Cristo que perdoa é o mesmo que diz que não peques mais. Amor sem justiça é alimento que cria sanguessugas. Hoje a maior proposta é que todos se tornem discípulos missionários para renovação de todas as estruturas, individuais e coletivas. Assim o seja!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Religioso X Político

"Só um religioso forte é um forte político". Esta sentença não pode ser tomada literalmente. Aqui o sentido de ambas categorias não se confunde com a realidade circunstancial que no momento estamos a sentir nos vários cenários da conjuntura brasileira. Tanto no aspecto religioso como no político, podemos identificar, subitamente, alguns traços característicos destes dois fenômenos que transparecem nas almas das civilizações, a saber, e, mais bem localizado no nosso contexto: 1) Religioso: charlatanismo, alienação, psicologismo, manipulação da boa-fé, mercantilismo do sagrado, manifestação de neuroses coletivas, mitolização do simbólico etc. 2) Político: corrupção, incompetência, manipulação midiática e ideológica, desonestidade, interesses, só e somente só, particulares, falta de ética e moralidade, despolitização popular, omissão dos pensadores e instituições que ainda gozam de credibilidade, falta de postura profética etc.

O senso do religioso quando vem atrelado indistintamente ao original significado do político, numa nação na qual ainda estão presentes elementos culturais profundamente cristãos, não pode ser dispensado, nem ingenuamente, criticada a relação do sagrado com o profano. O homem é um ser religioso, tanto quanto o é político. Quem o nega não faz a hermenêutica da História, no passado, no presente e, por isso, não o fará no futuro. As formas de viver a relação com o sagrado mudaram; porém, o desejo permanente do transcendente não mudou. Podemos fazer, ainda, uma sístole e, outrossim, uma diástole com estes fenômenos arraigados na condição humana. O que nos falta são critérios de escolha para uma possível e necessária síntese da ação.

O fortalecimento da nossa identidade existencial acontece de modo dialético e continuado. No âmbito religioso, o substrato que dá as condições para o 'estar no mundo' é a lúcida vivência desta forma humana-espiritual, sendo considerado os aspectos externos e internos. O Homem religioso que se mostra forte internamente, mas não se revigora externamente, não poderá perfurar a mentalidade comum que, como um espírito, anima a vida da Sociedade com seus mecanismos de ataque e defesa, manipulação e controle, poder e força, sabedoria e ignorância, maldade e bondade, violência e paz, injustiça e justiça, tristeza e alegria. O encontro do religioso e do político acontece é nesta dinâmica vivencial da Comunidade.

A Comunidade é constituída por pessoas. Ao dizer isto, se implica que há uma configuração subjetiva que se manifesta nas várias realidades manipuláveis pelo próprio ser humano. Pode haver entrelaçamento conveniente dos reais que se entrecruzam. Quando um está fraco, pode ser construído o robustecimento do outro que tem o seu espaço no tempo. O ponto de partida deve ser de dentro para fora. Quem tentar de fora para dentro já começará com o que mais lhe enfraquece. Existe uma perspectiva interna que não só ser pensada; mas, antes de tudo, vivida. O que é humano só tem significado no que é próprio do Humano.

Por fim, todos nós temos responsabilidades e qualidades inerentes. Nós as realizamos formal e concretamente? Jesus tem algo nos dizer: "Eu sou a vinha, vós sois os ramos: aquele que permanece em mim e no qual eu permaneço, esse produzirá fruto em abundância, pois, separados de mim, nada podeis fazer (Jo 15,5)". Sendo assim, cabe a pergunta: Com quem estamos e onde estamos? Quem se contenta com as migalhas que vêm de Deus, recebe Tudo. Porque Ele é Tudo! Quem se contenta com os restos que são dados por medíocres, é só mais um... Nós nos tornamos fracos quando esquecemos Quem e o que representamos. Assim o seja!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Uma espiritualidade que acontece no encontro

Nós, os padres da Arquidiocese de Natal, estamos no nosso retiro anual. Juntamente com o nosso Arcebispo, D. Matias Patrício de Macedo, fazemos a experiência da comunhão presbiteral. Para nós é tempo de graça, ou seja, da manifestação da presença de Jesus que nos diz, pela Palavra "Não rogo somente por eles, mas pelos que, por meio de sua palavra, crerão em mim: a fim de que todos sejam um (Cf. Jo 17,20-21a)". A nossa espiritualidade cristã passa necessariamente pelo encontro. Nós presbíteros devemos dar este testemunho ao mundo. O Documento de Aparecida nos convoca novamente a esta atitude. Para que esta palavra aconteça se faz mister o 'encontro pessoal com Jesus, que acontece na comunidade, alimentado pelos sinais manifestadores da real presença de Deus em nosso meio. A comunhão presbiteral é um dos meios pelos quais nós dizemos ao querido Povo de Deus que nós acreditamos no que pregamos. Não esqueçamos que é oração do próprio Jesus que todos sejam um (Idem). No nosso retiro, mais do que reunir-nos para ouvir as palavras do pregador, que este ano é o D. José Maria Pires, Arcebispo emérito de João Pessoa, nos encontramos como Presbitério para experienciar a unidade. Nós não podemos pecar contra a unidade da Igreja. Seria uma indiferença às palavras do próprio Jesus.

Às nossas queridas comunidades: rezem pelo clero! Apóiem os presbíteros na missão, que por sinal é de todos os cristãos. Aqui, onde se realiza o retiro, nós rezamos por todos vós. A razão de ser do nosso ministério sois vós. O coração do presbítero que tem consciência da sua identidade alegra-se com o vosso bem. O nosso encanto deve voltar-se para o que de fato vós esperais de nós. Esse encontro da espera e da doação deve acontecer sempre. Certamente, o sentido do retiro tem a ver com a preocupação da Igreja com cada filho seu. O Presbítero deve ser um homem de relação com Deus. Por isso, a comunhão que possibilita que todos sejam um, como o Pai e o Filho, precisa ser a nossa meta.

Infelizmente, alguns irmãos no ministério, por causas justificáveis, não puderam estar conosco. Por motivos diversos: saúde, idade, questões acadêmicas etc. Contudo, a certeza de formamos um só corpo nos une pela oração. Presbítero que se isola da missão comum da Igreja e da comunhão com seu Bispo atrofia a causa imediata do seu ser sacerdotal. Mesmo participando do Único Sacerdócio de Cristo, é pela comunhão que se materializa a unidade sob a ação do Espírito de Deus em nosso meio. Nenhum outro retiro substitui este momento de encontro do clero da Igreja particular. Quando nos encontramos somos fortalecidos e nos animamos para a Missão.

Por fim, o testemunho deixado a todos os cristãos é que nos consagramos para vossa felicidade. O Presbítero que não nutre esta perspectiva ministerial, normalmente se frustra. Então, mesmo como vossos servidores não esqueçam da humanidade do presbítero. A vida cristã vive e acontece pela caridade. A espiritualidade do Presbítero está vinculada de forma intrínseca à mística cristã. Mais uma vez no nosso retiro queremos tonificar esse propósito para nossas vidas. A oração sacerdotal de Jesus (Cf. Jo 17) é um ótimo instrumento de reflexão para o aprofundamento do sentido do sacerdócio. Às nossas comunidades a confirmação de que estamos e somos felizes porque nos consagramos a vós e a todos nós presbíteros da Arquidiocese de Natal que alimentemos, pelo encontro com Jesus na face do irmão presbítero, o nosso propósito de promover a unidade para que o mundo creia (Cf. Jo 17,21b).

terça-feira, 29 de abril de 2008

Arrependei-vos!

Na Quarta Feira de Cinzas, nós, cristãos católicos, começamos a celebrar a Quaresma. Este período é tempo de preparação para a celebração mais importante do cristianismo, que é a Páscoa, ou seja, a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. O imperativo é: Arrependei-vos! A fonte do que é proposto tem por base o que a palavra do próprio Jesus, quando ao iniciar a sua missão começa por proclamar que “cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho (Cf. Mc 1,15; Mt 4,17)”.

O espírito próprio deste período é a motivação para que todos os discípulos se convertam. A Quaresma é tempo propício para mudança radical dos nossos modos de pensar e agir nos nossos relacionamentos com Deus, com o próximo e conosco mesmo. Converter-se é mudar de mentalidade, tomar um novo rumo, deixar os desejos que nos escravizam e nos amedrontam, extirpar os ídolos que nós deixamos que ocupem o lugar de Deus em nossas vidas. Jesus mostra qual deve ser a atitude de quem quer continuar sendo fiel ao Senhor (Cf. Mc. 1,12-13; Mt. 4,1-11; Lc. 4,1-13). Como nós somos convidados a nos retirar, Ele antes o fez. Durante quarenta dias permaneceu no deserto. Queria abrir-se plenamente à missão de anunciar o Reino de Deus. Eis o grande projeto Dele e também o nosso. Mas para isso o aprimoramento da nossa opção fundamental deve ser continuamente fortalecido pelos sinais de Deus na nossa história, que só é qualificada pela ação Dele no tempo favorável. Estes quarenta dias que antecedem a Páscoa é o nosso momento. Quais são as nossas atitudes? A pedagogia evangélica nos propõe práticas que, se bem veiculadas, podem ser meios eficazes nos nossos exercícios espirituais. São elas: a) o Jejum; b) a Esmola e c) a oração. Também para os judeus eram os principais gestos que tornam os homens justos diante de Deus (Cf. Mt. 6, 1-18).

a) O Jejum: exercita o nosso eu que se precisa sair de si para encontrar-se com um outro. Só pela humildade isso pode se tornar possível. Por causa das marcas do pecado a nossa individualidade desordenadamente deseja ser absoluta. A tentação do poder que se ramifica em todas as circunstancias de nossas vidas, através dos e nos nossos relacionamentos. Nós queremos ser os nossos únicos senhores. Por isso, há quem tenha dito que “deus morreu”. O que vale é a nossa vontade. Pelo Jejum nós mortificamos os nossos desejos egocêntricos e narcisísticos para que a humildade aconteça.

b) A Esmola: Falar deste exercício é falar da caridade. Esta, segundo madre Tereza de Calcutá é o amor em movimento. Só o amor cristão tonifica a solidariedade. Quem ama não se doa por interesse. A solidariedade cristã não é mera filantropia nem, muito menos, demagógica pilantropia político-partidária. A solidariedade cristã está vinculada totalmente ao que é dos sentimentos de Cristo. A caridade é a maior de todas as virtudes (Cf. 1Cor. 13,13).

c) A Oração: Pela oração nós falamos com Deus e Ele, em segredo, fala conosco. Muito mais que falar para Deus, é importante que deixemos que Ele nos fale. O “Pai Nosso” deve ser uma manifestação do amor gratuito de Deus em nós. Pela intimidade de Jesus como Filho é que Ele fala a Deus como Pai. Precisamos aprender de Jesus como ser um bom filho. Ele é o modelo.

Por fim, a palavra de Deus é o nosso melhor instrumento para as meditações deste tempo quaresmal. Nós podemos nos organizar e ficar em prontidão de corpo e alma para celebrar a nossa Páscoa. Não se conhece vitória sem guerra. Jesus em seu deserto também foi tentado. Contudo, a proposta evangélica deste tempo é: “arrependei-vos e crede no Evangelho”. Assim o seja!