São José de Mipibú - RN / Arquidiocese Natal
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quarta-feira, 29 de junho de 2011

O profetismo e a cultura posmoderna

Um dos temas mais abordados pelos pensadores sociais da atualidade é a Posmodernidade. Diria até que é um tema transversal. Filósofos, sociólogos, psicólogos e antropólogos, o vêem como a questão que coloca o humano diante do dilema de quem ele é e que papel ocupa na nova ordem civilizatória. Digo nova porque, mesmo sem definição e fronteira históricas, tem elementos idiossincráticos ao seu dinamismo, como por exemplo a força e o poder avassaladores que têm hoje os “meios de comunicação sociais”. Com a reviravolta epistemológica orquestrada por René Descartes e aprofundada por Kant, a Modernidade lançará suas redes no individuo como sujeito-objeto e objeto-sujeito de tudo que o rodeia e que está sob seu jugo. Este dado é suficiente para o direcionamento racional da propositiva.

As instituições estão a passar também por uma crise de identidade. Os estados entram na armadilha de querer agradar a todos. A crise política do Oriente Médio, com toda sua tradição teocrática, instigou as movimentações de grupos nos outros recantos do mundo. Aí eclodem as variadas formas de pressão da opinião pública e da classe política para que tantos direitos, e espero que deveres, sejam reconhecidos. Transparece uma insatisfação com o já existente e o desejo de que novas ordens sistêmicas sejam institucionalizadas. No entanto, a discussão de maior relevância ainda não foi chamada em causa, que é a urgente e necessária existência da Tolerância. Mesmo sendo uma temática abordada na modernidade, fruto da reflexão política e filosófica sobre o estado moderno; ela continua fundamental para que a maturação das decisões, presentes e futuras, cheguem a bom termo de eficiência e eficácia.

Uma impostação que não considero, em hipótese alguma ingênua e a mais necessária de todas e, por isso, profundamente profética na Posmodernidade, é a máxima de Jesus: “o que vocês desejam que os outros lhes façam, também vocês devem fazer a eles” (cf. Lc 6,31). Eis um ensinamento que configura e sintetiza que tipo de profetismo pode ser anunciado na Posmodernidade. Esta cultura não pode querer ser só institucional nem só individual; mas sim relacional, que, por sua, vez só será possível se existir respeito mútuo entre as pessoas, as instituições e os povos. Para aqueles que fogem do discurso religioso esta Tolerância pode soar como via alienadora e alienante que precisa ser superada e abolida pelo dogmático e absolutista estado laico. Para estes a luta estratificada e revoltosa é que trará concretização das tantas e minoritárias buscas dos componentes dos grupos. Neste cenário, vem o “Homem Revoltado” de Albert Camus. O indignado com a injustiça do real. Isto particularmente deveria nos chamar à atenção, sendo que, nas religiões monoteístas o profeta também era este inquieto que representava os interesses de grupos não atendidos pela religião dominante institucionalizada (cf. Pierre Bourdieu).

O profetismo para o mundo de hoje continua sendo necessário; mas sem os embasamentos ideológicos e relativistas, que violentam a realidade e as pessoas. A orientação de Jesus Cristo é a mais profética e atual de todos os tempos, pois não violenta o pessoal nem o coletivo. Mudemos os nossos corações e conseguiremos redirecionar nossas atitudes para que haja convivência pacífica e respeitosa de todos os Seres Humanos. Assim o seja!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O ritual

Nos cinemas está passando um filme fascinante, cujo título é: “O ritual”. A película trata duma questão pouco discutida; mas que está muito presente nas experiências da sociedade contemporânea. O que para alguns seria problemática do período medieval, ganhou formas e fórmulas desconcertantes no contemporâneo. A trama é baseada em fatos reais e isto torna a descrição ainda mais intrigante. Citando João Paulo II, o autor categoriza o mistério do pecado como algo que faz parte da situação contemporânea como qualquer outra realidade, que apesar de tendencialmente eclipsada, continua muito presente nas multifacetadas façanhas do “original-originante” da confusão humana. O Cristianismo entende o Mal como conseqüência do pecado.

O Catecismo da Igreja Católica abrange o sentido do exocismo quando afirma que “o advento do Reino de Deus é a derrota do reino de Satanás: ‘Se é pelo Espírito de Deus que eu expulso os demônios, então o Reino de Deus já chegou a vós’ (Mt 12,28). Os exorcismos de Jesus libertam os homens do domínio dos demônios. Antecipam a grande vitória de Jesus sobre ‘o príncipe deste mundo’ (Jo 12,31). É pela Cruz de Cristo que o Reino de Deus será definitivamente estabelecido: ‘Regnavit a ligno Deus’- Deus reinou do madeiro” (Cf. 550).

Quem não acredita na possessão demoníaca, outrossim, não pode negá-la. O racionalismo iluminista não conseguiu varrer para debaixo do tapete a dimensão espiritual do homem. Por incrível que pareça ser, a modernidade está muito mais propensa ao mistério que dantes. O diferencial é que se existia uma hegemonia católica até o século XVI, depois surgirão as fragmentações com suas liquidações na Posmodernidade. Os diálogos traçados pelos personagens são profundamente relevantes para compreensão dos fenômenos espirituais que radicalmente envolvem o ser humano no seu modo de viver e saber o mistério, numa perspectiva maniqueísta.

Ainda o Catecismo reitera que “a Igreja exige publicamente e com autoridade, em nome de Jesus Cristo, que uma pessoa ou objeto sejam protegidos contra a influência do maligno e subtraídos a seu domínio, fala-se de exorcismo. Jesus o praticou, é Dele que a Igreja recebeu o poder e o encargo de exorcisar. Sob uma forma simples, o exorcismo é praticado durante a celebração do Batismo. O exorcismo solene, chamado ‘grande exorcismo’, só pode ser praticado por um sacerdote, com a permissão do Bispo. Nele é necessário proceder com prudência, observando estritamente as regras estabelecidas pela Igreja. O exorcismo visa expulsar os demônios ou livrar da influência demoníaca, e isto pela autoridade espiritual que Jesus confiou à sua Igreja. Bem diferente é o caso de doenças, sobretudo psíquicas, cujo tratamento depende da ciência médica. É importante, pois, assegurar-se, antes de celebrar o exorcismo, se se trata de uma presença do maligno ou de uma doença”(Cf. n. 1673).

A Igreja Católica trata a questão, como está explicitado, com muita seriedade. A “Fé dignifica a vida do ser humano”. O encontro e a certeza da sua existência de Deus nos livram do Mal. Confiemos na Palavra do Senhor que diz: “Não peço que os tire do mundo, mas que os guardes do Maligno”(Cf. Jo 17,15). O filme é uma produção que nos coloca diante de questionamentos existenciais e absolutos interessantes e necessários. Vale a pena ser visto e refletido. Assim o seja!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Quem é homofóbico?

O papa Paulo VI certa vez afirmou que uma questão preocupante é que o homem moderno perdeu a consciência do pecado. Esta inquietação é de suma relevância a compreensão do sentido da vida para o homem Posmoderno. Este, por sua vez, perdeu os referenciais institucionais. Só que sua historicidade exige uma relação autoconfirmadora da identidade social. A Igreja católica é uma instituição que existe para evangelizar. O mesmo pontífice relaciona a dinâmica da evangelização com a promoção humana. A Igreja é perita em humanidade. Isto porque o divino se fez homem para que o homem pudesse ser divino, e este mesmo homem é chamado diariamente à conversão.

Atualmente as “minorias” têm muitos recursos para fazer suas manifestações. Elas querem criar uma nova ordem sistêmica. Como este cenário, vale a pena uma visualização apocalíptica! Muitos cordeiros serão imolados, porque se busca respeito, mas respeitar que é bom, nem pensar! Aliás, quem não se respeita e nem tem auto-estima nunca será capaz de acolher também o diferente! Depois daquela frase da jovem paulista pedindo para que alguém matasse um nordestino, o tema sobre o preconceito veio novamente à tona. Mas como negar que todo mundo tem “pré-conceitos”. Esta tendência faz parte da contingencialidade humana. O homem precisa ser lobo do outro homem; o outro será sempre o seu inferno; se existe o evolucionismo biológico, o social será uma realidade do transcendente para o transcendental. Todo mundo tem esses pressupostos, que normalmente são gnosiológicos, subjetivos e, por isso, culturais. Niklas Luhmann (autor alemão) analisa a evolução de ordens sistêmicas que evolutivamente dão sentido e se constroem na História. Estamos passando por uma nova metamorfose cultural, mesmo sem uma configuração identificada do tipo de construção civilizatória que queremos. O que os filósofos da ciência chamaram de paradigmas, os da área de humanidades ressignificaram para falar que está sendo travestido o que é humano e sempre demasiadamente humano. A única realidade que pode identificar ela mesma é o próprio ser humano. Todas as pessoas merecem respeito, todas! Suas tradições, seus costumes, seus valores, sua história, seus ideais... Este conflito no Estado de Direito sempre vai existir. Mas se vivemos numa democracia, como conceber que uma minoria sufoque o que é próprio da maioria?! O que se sabe é que tem muito dinheiro rolando por trás destes movimentos. Os defensores dos direitos das minorias, que verdadeiramente merecem todo respeito porque são filhos de Deus, se utilizam bem destas “oportunidades” para angariar muitos recursos e que nem sempre são aplicados como realmente deveriam. Os homossexuais, travestis, lésbicas e outros, sem perceber, muitas vezes são usados para manter a situação satisfatória de muitas pessoas sem escrúpulos e princípios éticos. Ninguém diga que reunir pessoas que são usadas como fantoches para que alguns sejam promovidos parasitariamente é o que vai levar dignidade a uma pessoa que por questões biológicas, sociais ou psicológicas tem um modo de viver diferente e que necessita de acolhimento, antes como filho(a) muito amado(a), apesar de seu pecado! Todos os seres humanos têm uma tendência para praticar o mal, todos! Isto não é um privilégio de quem é branco ou negro, hetero ou homo, rico ou pobre etc, mas Cristo morreu por todos. Isto não é fundamentalismo religioso e, quiçá, possa ser! Quem não tem fundamentos, quem é e o que é? Quem poderia dizer diferente que o diga... Mas os elementos estão postos e quem tem outros pontos de vista porque não os defende com honradez e honestidade? Não respeita mais os outros? Por que violenta os sentimentos religiosos e íntimos dos demais?

Homofóbico é quem não diz ao homossexual e outras minorias que eles precisam ter mais hombridade, porque são dignos filhos de Deus e podem ser reconhecidos pelo trabalho; pela busca de educação; pela competência; pelo amor a família e etc, e não pela vulgaridade; violência; desrespeito pelos valores dos outros, também; ou se esquecem disto!?

Por fim, busquem seus direitos, porém, não esqueçam de respeitar o que é dos outros! Uma ordem que se pretende humana, nunca maltratará o que verdadeiramente humano. Tem muito mercenário se dizendo protetor das causas quase impossíveis. Cuidado! Diga com quem andas que todos vos dirão quem és... Assim o seja!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

O Papa e os preservativos

Nestes últimos dias surgiram divulgações e comentários jornalísticos em torno da resposta do Santo Padre, O Papa Bento XVI, o qual ao ser indagado sobre a questão do uso dos preservativos declara: “É obvio que ela (a Igreja) não os vê como uma solução real e moral. Não obstante, em um ou outro caso, podem ser, ‘na intenção de reduzir o perigo de contágio’, um primeiro passo no caminho rumo a uma sexualidade mais humana” (cf. Zenit). Contudo, muito mais relevante para compreensão do pensamento do Pontífice é o que ele afirma sobre o significado da sexualidade: “O importante é que o homem é alma e corpo, que ele é ele mesmo enquanto corpo e que, por isso, é possível conceber o corpo de forma positiva e a sexualidade como um dom positivo. Através dela, o homem participa da condição criadora de Deus. Encontrar esta concepção positiva e cuidar desse tesouro que nos foi dado é uma grande tarefa” (Idem). Estas questões podem ser lidas no livro “Luz do Mundo”, que segundo o autor, Peter Seewald, o papa apresenta um amplo “panorama”, em seis horas de entrevista realizadas em junho passado, em Castel Gandolfo, na residência de verão dos pontífices.

O que o papa disse em hipótese alguma fere o que é magistério eclesiástico. O bombardeio jornalístico focou a atenção muito mais no uso da camisinha do que na afirmação do pontífice sobre o sentido da sexualidade. Sem dúvida, com um teor de ideologia da ditadura do relativismo Posmoderno, foi imediatamente traçado uma massificação das palavras do pontífice para que o uso das “sacolas de plástico” possa passar a ser visto, paulatinamente, como a solução para os reais problemas que afligem a vivência da sexualidade, que “é uma componente fundamental da personalidade, um modo de ser, de se manifestar, de se comunicar com os outros, de sentir, de expressar e de viver o amor humano. Esta capacidade de amor como dom de si tem, por isso, uma encarnação no caráter esponsal do corpo, no qual se inscreve a masculinidade e a feminilidade da pessoa. (...) A sexualidade deve ser orientada, elevada e integrada pelo amor, que é o único a torná-la verdadeiramente humana. Quando tal amor se realiza no matrimônio, o dom de si exprime, por intermédio do corpo, a complementaridade e a totalidade do dom; o amor conjugal torna-se, então, força que enriquece e faz crescer as pessoas e, ao mesmo tempo, contribui para alimentar a civilização do amor; quando pelo contrário falta o sentido e o significado do dom na sexualidade, acontece uma civilização das coisas e não das pessoas; uma civilização onde as pessoas se usam como se usam as coisas. No contexto da civilização do desfrutamento, a mulher pode tornar-se para o homem um objeto, os filhos um obstáculo para os pais” (cf. sexualidade humana: verdade e significado, 10).

A assertiva do pontífice deverá ser interpretada tendo-se em vista questões urgentes e circunstanciais. A sexualidade não perde sua finalidade de ser meio de realização da pessoa humana. A vivência da sexualidade implica doação e integração total. Por sinal, uma das características de pessoas que vivem uma sexualidade desumanizada é desequilíbrio psicossocial. Basta conversarmos com pessoas que têm esta vivência. Mas não deveria ser o contrário!? Só que não é. Pela sua significância para realização humana, a sexualidade só é meio de satisfação psicoafetivamente e conseqüentemente, potencialidade criadora da Civilização quando tem sua intenção finalística plenamente respeitada.

Por fim, que a experiência do amor seja a qualidade inerente às relações sexuais e que, assim sendo, tudo possa ser um sinal deste amor do Criador. Assim o seja!

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O que fortalece a Igreja?

O referencial da nossa conversão é Jesus Cristo. Sua pessoa e sua obra. Alguém poderia perguntar onde este mestre e senhor pode ser conhecido? A resposta é imediata: na palavra de Deus, claro que sem negar os demais lugares de encontro (cf. DA, n. 246-275). O princípio teológico e hermenêutico para o inicio deste processo é saber que ele “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava voltado para Deus, e o Verbo era Deus (...) e o Verbo se fez carne e habitou entre nós (cf. Jo 1,1.14). Mesmo com sua preocupação circunstancial, a teologia paulina seria utilizada no futuro para que nós possamos compreender universalmente a importância da sua eclesiologia para o passado, para o presente e, ainda mais, para o futuro. Os padres conciliares ao apresentarem a Igreja, metaforicamente, como corpo de Cristo afirmam que “assim como são muitos os membros do corpo humano, mas o corpo é um só, também os fiéis (cf. 1Cor 12,12). Na edificação do corpo de Cristo há igualmente diversidade de membros e de funções. O Espírito é sempre o mesmo, que distribui os seus dons segundo sua generosidade, as necessidades do ministério e a utilidade da Igreja (in. LG, cf. 1Cor 12,1-11)”. Sem delongas, vale sublinhar três ações que sinalizam a augusta necessidade da Igreja como luz do mundo, a saber: 1) O testemunho; 2) A comunhão e 3) O profetismo.

O testemunho: O mundo está carente de testemunhas do Evangelho. Jesus, depois de falar da importância das bem aventuranças, acrescentou que os seus ‘ouvintes’ devem ser “Sal da terra e Luz do mundo (cf. Mt 5,13-16)”. As pessoas perderam os referenciais da Verdade. Esta inclui, sem dúvida, as palavras e as obras. A ação humana só ecoa se estiver carregada de testemunho de vida. Os pensadores da Humanidade falam duma crise do humano. Se existe uma confusão do que é humano é porque existe um obscurecimento do que é divino. O ocultamento de Deus é uma inventiva desumana de quem não entende que Ele é necessário para o esclarecimento humano. A crise da Era Posmoderna, delineada por pensadores sociais, é visível diante das crises existenciais do Humano. Os desencontros pessoais e globais são bases para a reflexão do que é mister ser mudado para o bem futuro da Humanidade. O testemunho cristão é Luz para essa empreitada. Isso porque é constituído sobre palavras de Vida Eterna.

A Comunhão: Esta constituição nos levará a uma possibilidade e necessária comunhão universal. Nenhum projeto de ética ou humanismo tem consistência sem uma unidade que respeite as diversidades. Claro que será uma projeção da Esperança cristã. Não da Utopia, que é um “não lugar”. A via cristã tem lugar no tempo e no espaço da História da Humanidade. Por isso, um sacramento universal de Vida e Salvação é condição imprescindível para esta realização.

O Profetismo: O verdadeiro profetismo não violenta a realidade. Infelizmente durante algum tempo existiu alguém que achou isto. A profecia para ser autenticamente divina não dispensa o que é humano; mas o aperfeiçoa e o condiciona à vontade de Deus. O amor e a razão elevam as atitudes do profeta. Ele não pode ser um mero visionário. Por acaso, o que é de Deus é ilusão?! Deus pode ser o pai de uma mentira? A História da Salvação para quem tem Fé é um auto-engano? Não. Como Discípulos de Jesus Cristo, somos chamados a ser profetas no Mundo, hoje.

Por fim, que nossas atitudes como filhos de Deus e da Igreja sejam as marcas da credibilidade tão necessária para consecução duma Sociedade onde ainda possa reinar a Verdade e a Justiça. Estas fortalecem as pessoas e a comunidade. Assim o seja!

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Quem se afasta da igreja...

Nós precisamos da igreja para estar em comunhão com Deus? Me parece na atualidade um questionamento de suma importância. Cada vez mais as pessoas criam ou são levadas a criar "imagens de deus". Hoje existe um deus para curas, para mediador da prosperidade, vigilante de todos os males, pai de santo e infortúnios, apagão de pseudo-intelectuais, pois estar virando moda o desrespeito aos acadêmicos que professam a sua fé, um deus que se combate entre irmãos que dizem acreditar num único senhor etc...

A crítica feita por Ludwig Feuerbach, infelizmente ou felizmente, devemos reconhecer, está ganhando materialidade. Segundo ele, "a essência do homem, em contraste com a do animal, não é apenas o fundamento, mas também o objeto da religião... que é a consciência que o homem tem do infinito" (Essência do cristianismo, cap. I). Claro que o referencial do infinito aqui não é Deus, mas a potencialidade do humano pensar como perfeito e divino o que existe em função de simesmo (Idem). As formas relativistas e babélicas das varias comunidades religiosas estão nesta linha de raciocínio. A Igreja no momento não está sendo mediadora fundante das experiências religiosas. As tendências são individuais e por incrível que pareça, despersonalizadas. O conceito de doutrina se tornou confuso e caótico.

Cada um prega o que e como quer. Basta vermos os pregadores de plantão nos meios de comunicação. Ninguém sabe o que se diz. Basta que seja dito. Como as pessoas foram e continuam sendo levadas a não acolher ou mais propriamente se converter a Deus pela mediação objetiva da Igreja, desde a reforma protestante, então cada um tem a liberdade para interpretar o que não se ver e o que ninguém mais testemunhou. Eis à nossa frente o triste fenômeno da manipulação do sagrado como forma aberrante de tornar, de fato, a religião um "ópio do povo".

Em outro momento, afirmei que "a Páscoa é a metáfora imanente do humano transcendente". Nós, cristãos, católicos precisamos entender e acreditar que mediante a liturgia, fazemos memória dos acontecimentos históricos da ação de Deus na vida dos homens e mulheres que se converteram a Ele. Por isso que, não podemos confundir manifestações tradicionais da mitologia com as demonstrações culturais das Tradições salvíficas do Senhor. Nas conversas e direções espirituais com pessoas que se afastaram da Igreja, lanço uma pergunta que sempre deixam as pessoas um pouco inquietas: Depois que deixou de celebrar a sua fé, você veio a ser mais feliz?

A resposta, até o momento, foi negativa. Jesus é a nossa Páscoa. Ele é o humano no qual nossa transcendência ou a nossa capacidade de Deus se torna acontecimento real e esperançoso da Vida plena. Já estar morto quem não está na presença de Deus! A Igreja, santa e pecadora que é, continua sendo necessária para o fortalecimento objetivo da nossa "carência" Dele. Pela falta de conversão pode ser apagado o humano que é divino; mas nunca poderemos destruir o divino que é humano.

Por fim, a Páscoa de Cristo é sempre um convite para que os cristãos repensem o sentido da vida. Ele é o Ícone de Deus manifestado ao mundo para que todos, que Nele acreditarem, possam ter a Vida eterna, que consiste no conhecimento do único Deus verdadeiro, e aquele que por Ele foi enviado, Jesus Cristo (cf. Jo 17,3). Assim o seja!

domingo, 21 de junho de 2009

Formação permanente: busca pelo ser melhor

Os profissionais de hoje precisam buscar a excelência. Todas as pessoas que têm consciência do seu papel como agentes sociais devem se sentir impulsionados a aperfeiçoarem-se mais e mais. O mundo competitivo exige isto dos membros das várias instituições e organizações empresariais. Quem não se atualiza fica a margem das poucas opções de trabalhos que são oferecidos pelo sistema. O que possibilita uma reflexão sobre a questão é uma olhada microscópica sobre a conjuntura mercadológica.

O mercado se alimenta da compra-venda de mercadorias e da competitividade. Ultimamente, outrossim, com a crise econômica mundial se mostrou que a especulação financeira é a mais recente mão invisível do sistema capitalista. Mediante o mundo virtual a força do poder econômico comandou as rédeas das transações monetárias que agora se injetam como se fossem um mundo a parte das reais condições de atividades da humanidade.

Neste processo de contínuo progresso rumo ao encontro com deus do ter, as pessoas se tornaram objetos de todos os mecanismos de sustentação deste "Zeus" da Posmodernidade.

Os pensadores logo hão de começar a escrever e a falar sobre este novo elemento que caracteriza as artimanhas deste mundo que é globalizado pelos meios de comunicação, que relativiza o que é absoluto, que imanentiza o transcendente, que transforma o finito em infinito, que desvaloriza o que é de valor, que destitui para se destituir.

Para se sentir seguro, mesmo que não o seja, estes vários artífices correm continuamente pela forma mecanizada. Não humanizada e humanizadora. Eis o problema. O que dificulta uma realização progressista da humanidade é justamente esta falta de perspectiva futura, que não se confunde com o imediatismo feiticista, mas com a própria esperança humana de encontrar a plenitude da existência. Por isso, a formação do homem posmoderno é marcada pela tentativa de ter a excelência, mesmo sem ser excelente. O que se elimina do ser humano é o sentido da sua própria dignidade que é a capacidade de amar para pensar e pensar para melhor amar. A formação permanente precisa recuperar este horizonte antropológico. Enquanto as várias instâncias educativas e institucionais pensarem a formação continuada com paradigmas da sistêmica mercadológica, o ser humano será reduzido mais e mais a simples especiaria.

Hoje a qualificação, sem dúvida nenhuma, precisa ser desejada; porém, que modelos epistemológicos e axiológicos são observados para que esta perfeição não se torne infrutífera para a própria condição humana? Como pensar que uma tão bem usada tecnologia especulativa serve para tornar bilionários a alguns e desempregados a milhões?!

Por fim, a importância da qualificação permanente tem que ser vista por todos como um valor vital. Precisamos nos preparar para a vida. Quem estuda para ser mais, em vez de só pensar em ter mais, será alguém que tem porque é feliz e não é feliz porque tem.

Nós temos o que é efêmero; justamente porque o temos. Quem sente o que tem, transforma o meio pelo que ama e tem tudo que ama. Sendo assim, encaremos este desafio de querer a excelência que trás vida plena e dignidade humana para os que são protagonistas da sua História. Assim o seja!

domingo, 25 de maio de 2008

A Igreja e o Diálogo com a Cultura Pós-Moderna

Depois do Concílio Vaticano II e a sua mentalidade que é notoriamente dialógica e renovadora, um novo espírito surge no interior da Igreja. Basta que seja lido o seu integrado e integralizador documento: Gaudium et Spes. A lógica deste maravilhoso texto ainda não foi absorvida por muitos cristãos católicos. Ela nos coloca diante do grande desafio da Igreja, que deve ser, para a Humanidade, o “Universal Sacramento de Salvação”. Observando a realidade e embasado por aquilo que é magistralmente apresentado por esta Igreja pós-conciliar, o que é urgente é o diálogo respaldado por três vias, a saber: 1º) - Verdade; 2º) - Respeito; e o 3º) - Evangelho.

A Verdade: O evangelista João apresenta Jesus como a Verdade (Jo 14,6) e o seu Espírito é o Espírito da Verdade (Jo 14,17). Nós acreditamos nesta Verdade! Ela é uma Pessoa. Ela não se confunde com a “adequação do intelecto a coisa”, mas do intelecto, do coração e do espírito à Pessoa, que é a própria manifestação de Deus amor (1 Jo 4,8). Por isso, o nosso diálogo com o mundo não pode ser somente “apologético”, pois, isto significa em dizer que o outro é para a gente só uma ameaça. O próprio Jesus disse: “Eu vim chamar não os justos, mas os pecadores, para que eles se convertam (Lc 5,32)”. Não esqueçamos que se converter é mudar de mentalidade por causa do encontro pessoal com Jesus.

O Respeito: O respeito pelo “Outro” é indispensável para o entendimento do significado do diálogo na Cultura pós-moderna. Isto implica dizer que a identidade de cada um seja respeitada. Esta responsabilidade, cada indivíduo, como ser pensante, deve ter e esforçar-se para mantê-la. A Igreja, que tem como Protótipo a Trindade, precisa lançar-se para dizer isto ao Mundo. Os pressupostos inerentes pela própria ordem sistêmica (Niklas Luhmann) possibilitam um lúcido envolvimento com as diversas institucionalizações de “verdades”. Estas não falam de uma verdade decorrente e, por isso, contradizem o que é próprio dela. Não existe forma ingênua de dizer a verdade quando o “Outro é respeitado”. O que falta na civilização neurótica de hoje é a busca do conhecimento da verdade do “Outro” que é a via de encontro sem a qual não se conhece a “Verdade”.

O Evangelho: poderia ser dito que falta conhecimento da Palavra. Jesus é a Palavra(Jo 1,1). O Evangelho possibilita o diálogo com todas as culturas. O importante é o esforço e a coragem de estar no mundo. Pregar e falar do Evangelho é falar de Jesus. A categoria “Reino de Deus” pode ser colocada como princípio hermenêutico na realização deste projeto, que é Dele. A defesa só acontece diante do inimigo. Para o Cristão o “Outro” não pode ser inimigo. Ele é imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27). A apologética pré-conciliar não tem lugar numa Igreja que tem consciência da sua identidade missionária. Aprofundemos o espírito de Aparecida e as diretrizes da ação evangelizada traçadas pela última reunião dos Bispos, em Itaici. Esta Igreja ou assume sua postura evangélica e missionária ou estará pecando contra o mandado de Jesus, que envia (Mt 28,19-20).

Por fim, o esforço espiritual e intelectual vem a ser, hoje, algo urgente, tendo em vista os desafios atuais. A coragem não dispensa a sabedoria e a inteligência. O amor àqueles que são carentes da Verdade não dispensa a seriedade das nossas atitudes e nosso testemunho. O diálogo autêntico e evangélico da Igreja com o mundo só vai acontecer quando o cristão assumir como precisa viver, para que todos os povos tenham vida Nele.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Discípulos formados, comunidade forte

“Só uma comunidade de discípulos bem formados, transforma uma comunidade cristã”. Santo Agostinho diz que “no crente, Cristo se forma, pela fé, no homem interior, chamado à liberdade da graça, manso e humilde de coração, que não se envaidece pelos méritos de suas obras, que são nulas. Se ele começa a ter algum mérito, deve-o à própria graça. A este pode chamar seu mínimo e identifica-lo consigo aquele que disse: ‘O que fizestes a um dos mínimos meus, a mim o fizestes. Cristo é formado naquele que recebe a forma de Cristo. Recebe a forma de Cristo quem adere a Cristo com espiritual amor (PL 35,2131-2132)”.

Um cristão que faz a experiência com o mistério do ressurreto, no tempo qualificado pela presença de Deus, se torna, na comunidade, um ser com Cristo, vinculado à sua Igreja. Essa proposta não perde seu encanto em meio aos tantos desa fios da Posmodernidade. O que era próprio do cristianismo da Igreja primitiva, continua sendo atual, aqui e agora. A formação dos discípulos missionários é justamente a tentativa de potencializar uma mentalidade atualizada do que é peculiar a Cristo, no tempo de Deus. Este horizonte, pelo tempo e no espaço, por meio de toda a simbologia divina, dinamizada na história, pela e na Igreja de Cristo, dá as condições necessárias e integrais para que o discípulo tome as estruturas humanas e testemunhe, no mundo, a verdade e o amor que é Deus e só é de Deus, revelado plenamente em Jesus Cristo (Cf. Jo 1,1-18).

A proposta eclesial e bem contextualizada desta meta teológica e pastoral está contida e lançada para a Igreja latino-americana no documento de Aparecida. A tentativa da V Conferência não pode ser ‘atrofiada’. É um convite para todos os fiéis batizados e em função de todos os cristãos. A Igreja tem que estar em estado permanente de Missão. A característica desta realidade humana e divina é o seu hoje projetado para o futuro. Esta forma histórica da presença do divino na História da Humanidade só é forte quando é bem estruturada pelos sentimentos presentes no coração de Cristo, que diz o que é de Deus. O Espírito de Deus, e só por Ele a comunidade cristã se caracteriza e é caracterizada pela vida e missão de Jesus para a salvação do gênero humano e glorificação de Deus.

Em todas as instancias das estruturas temporais, nós somos convidados a dizer e viver a verdade e anunciar o reino de Deus (Cf. Mc 1,15). Não só em meio aos pobres, mesmo tendo a convicção que nossa opção preferencial e não excludente é por eles, mas em todos os lugares nos quais nós estejamos atuando e cumprindo os nossos afazeres. Todos têm direito à comunhão com a pessoa de Jesus, porque todos somos filhos de Deus. Precisamos reconhecer e discernir que a nossa pecaminosidade pessoal é causa dos males sociais, principalmente no confronto com tantas injustiças existentes; contudo, o encontro pessoal com Jesus, pelo qual a graça se nos foi concedida (Cf. Jo 1,17), é uma possibilidade humana e uma garantia divina.

Enfim, o que o doutor da graça nos escreve continua sendo atualíssimo. A formação dos discípulos missionários é o meio sem o qual a unidade de espírito e de corpo da comunidade cristã, em Cristo e através da Igreja, tem que ser continuada e permanente. O paradigma teológico e metodológico do intento de Aparecida ainda não foi compreendido pela maioria dos cristãos católicos. Mas a Fé não dispensa a Esperança. Assim o seja!